A literatura na Intervenção Psicopedagógica

Pesquisas e opiniões do senso comum apontam dificuldades, por parcela significativa da população brasileira, com relação à apropriação e ao uso da linguagem escrita (GOMES, 2013; ENRICONE & SALLES, 2011). Ainda que, na maioria dos casos, essas dificuldades tenham sido produzidas por fatores sociais, escolares ou familiares, o fato é que os sintomas de leitura e escrita sugerem que os sujeitos estabelecem uma relação de sofrimento com essa modalidade de linguagem.

Tal realidade está associada à resistência e ao desprazer na relação com a escrita, ao desconhecimento acerca de suas funções, valores e usos, bem como a formas  restritas de operar com a leitura e escrita. Enfim, a relação negativa que os sujeitos estabelecem com a linguagem escrita implica sentimentos de incompetência, de ignorância e de inferioridade que restringem as possibilidades de seu uso (MACHADO, BERBERIAN e SANTANA, 2009).

Nessa direção, o uso da  literatura na intervenção psicopedagógica vem sendo apontada como uma abordagem que, potencialmente, pode favorecer o implemento e práticas significativas da linguagem escrita e, portanto, de ressignificação de histórias de sofrimento com essa modalidade de linguagem BARONE, 2007; PORCACCHIA & BARONE, 2011).  Levando em conta que os sujeitos com queixa de leitura e de escrita apresentam, muitas vezes, condições de leitura e de escrita consideradas restritas ao decidir pelo atendimento clínico, identifica-se no processo terapêutico uma possibilidade de ressignificação dos sentidos atribuídos à queixa.

 A atividade literária é concebida como uma das formas de elaboração do conflito, da mesma maneira que os jogos infantis, a criação de personagens é uma das manifestações de uma função estabilizadora na manutenção da integridade e desenvolvimento do psiquismo (Cruz, 2003). Sendo assim, a produção literária é mais autobiográfica do que o próprio escritor chega  a reconhecer.

O conflito psíquico pode levar a um processo de fragmentação do aparelho mental, mas também ser um ponto de partida, para um movimento de significação e posterior integração no mundo interno, ao ser transformado em rica, mesmo que dolorosa experiência de vida (Cruz, 2003). Assim, as  personagens e histórias representam o mundo interno construído por emoções, sendo a escrita uma forma de alivio psíquico, na medida em que ajuda o autor a desprender-se da maneira mais absoluta de seus conflitos (Cruz 2003).

Para Barone a literatura “é fonte e reservatório de toda produção humana, em qualquer cultura, e através dela o homem pode tomar consciência de sua realidade, externa e interna… oferece ao leitor a forma do humano levando-o a compreender melhor a si e a seu mundo” (2007, p.30) . Escutar histórias possibilita descobrir o mundo dos conflitos, das dificuldades, dos impasses. É ouvindo histórias que se pode sentir emoções com o significado e verdade que estas fazem brotar (Abramovich, 2001).

Cândido (2004) relata a importância do fenômeno literário e seus efeitos. Ele diz que a complexidade que advém da natureza se distingue em três faces: a construção de objetos autônomos com a sua estrutura e significado;  forma de expressar e manifestar emoções bem como a visão de mundo tanto individualmente quanto dos grupos; forma de conhecimento.

Diante do exposto, este artigo tem como objetivo relatar atendimento psicopedagógico de criança com dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita ressaltando a utilização da literatura infantil como possibilidade terapêutica. 

Durante o período de agosto a dezembro de 2013 foi realizado o atendimento na Clínica de Psicopedagogia Unifieo de uma paciente de 09 anos a que chamaremos de Ana Clara. No período do atendimento cursava o terceiro ano do Ensino Fundamental I. Ana Clara foi trazida à clínica pela mãe com queixas de: Dificuldades na leitura e escrita e a escola informou que ela era apenas copista, embora tentasse realizar as atividades não conseguia evoluir. Ela escrevia corretamente seu nome, mas porque já o memorizou.  Reconhecia as vogais e as letras, mas sabia pouco sobre juntar as sílabas.

O primeiro passo para o atendimento foi compreender como a paciente se via diante da situação pela qual foi levada à clínica. Ela tinha dificuldade para falar de si mesma, sentia-se incapaz para a realização de novas tarefas, não acreditava em seu potencial, sentia-se inferiorizada as demais pessoas, não falava muito e era tímida. Demonstrava muito carinho pelas pessoas à sua volta, sentia necessidade de abraçar e beijar, a todo o momento gostava de ser elogiada em suas atividades.

Foi marcada entrevista para levantamento de dados para a anamnese para que a avaliação e a intervenção pudessem acontecer de maneira adequada e com um olhar mais específico e no horário agendado a mãe da paciente compareceu à clínica sozinha, dizendo que atualmente ela não morava com o pai da filha e que se casou novamente.

Foi explicado a ela a importância de uma entrevista com os pais. Ela respondeu a algumas perguntas referentes à filha desde o momento da gestação. Informou que a gravidez foi planejada. Não houve problemas durante a gestação e que tinha o hábito de conversar com o bebê durante a gestação. Ficou sozinha nesse período porque o marido trabalhava longe e retornava para casa somente nos finais de semana. Informou ainda que Ana Clara tinha irmãos por parte de pai, entretanto não havia muito contato entre eles.  A mãe só notou a dificuldade da filha após ter ido a uma reunião escolar. Procurou a coordenação para que encaminhassem a criança para atendimento psicopedagógico.

Os primeiros atendimentos de Ana Clara se deram por análises de desenhos e compreender como se dava os vínculos de afetividade. Para isso foram utilizados diversos materiais escolares tais como: lápis, borracha, papéis, canetinhas e os mais diversos jogos pedagógicos tais como: dominó, pega-varetas, jogo da dama, xadrez, etc.

Durante as sessões de avaliação, foi possível perceber que Ana Clara gostava muito de ouvir histórias e apreciava as leituras, embora tivesse dificuldades com a leitura. Mas gostava de narrar diversas histórias e entrar no mundo da fantasia.

Baseando-se nestas percepções, durante as sessões de intervenção, o trabalho realizado foi através da literatura nas mais diferentes formas, para que Ana Clara pudesse se sentir mais confiante em si mesma, entrar no mundo da fantasia dos contos e das mais diversas leituras, trabalhando sua percepção, autonomia, leitura e escrita, de forma dinâmica, para que o aprendizado pudesse acontecer de uma maneira lúdica e criativa, levando-a a entender que a aprendizagem é possível. Para isso, ela precisava acreditar em seu potencial e que também se esforçasse para que seu aprendizado pudesse tornar-se algo eficaz. Ela mostrava-se atenta, mas precisava de estímulos para conseguir alcançar seus objetivos.

As intervenções foram realizadas com a utilização de livros literários tais como: Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão, Chapeuzinho Amarelo, Branca de Neve e livros de poesias.  E a cada semana era trabalhado um livro diferente. Foram feitas várias atividades, desde pinturas, desenhos, colagens, histórias narradas por ela e também à tentativa da escrita. Muitos materiais foram utilizados: papéis coloridos, recortes de revistas, lápis de cor, giz de cera, entre outros.

Algumas sessões foram trabalhadas com pinturas, desenhos, colagens, para que Ana Clara pudesse internalizar as funções lúdicas e para que conseguisse focar a aprendizagem e entender que todas as pessoas passam por dificuldades, mas que é possível crescer como individuo.

Vale ressaltar que literatura na clínica de psicopedagogia, é possível ampliando e gerando novas formas de tratamento.

Considerações Finais

A utilização de livros literários infantis foi muito positiva durante a intervenção psicopedagógica, pois ela foi instrumento principal para o auxílio durante as sessões levando tanto paciente quanto psicopedagoga à reflexão da afetividade, os motivos das dificuldades e para que a intervenção pudesse ser de fato realizada. Os resultados de atendimento foram satisfatórios para a paciente, sua interação para com as atividades propostas foi sem dúvida alguma muito relevante e ela foi adquirindo autonomia e se percebendo diante do mundo. O presente trabalho foi relevante e os resultados foram satisfatórios alcançando os principais objetivos que foram de proporcionar a paciente a descoberta de sua autonomia.

A utilização de livros literários infantis foi positiva durante a intervenção psicopedagógica, pois ela foi instrumento principal para o auxílio durante as sessões levando tanto paciente quanto psicopedagoga à reflexão da afetividade, os motivos das dificuldades e para que a intervenção pudesse ser de fato realizada. A literatura mostrou-se importante para a formação de uma pessoa nos mais diversos aspectos, pois através da linguagem o individuo deixa de ser apenas um telespectador e passa a ser autor de sua própria existência.

Artigo Publicado: Rev. Grad. USP, vol. 2, n. 3, dez 2017

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